quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

SERÁ SÓ IMPRESSÃO ?

Poderá ser apenas impressão. É porém uma ideia que persiste, que se arrasta. Há uma fractura nítida na comunidade tomarense. Recorrendo à terminologia geográfica, no vale nabantino, os eleitos consideram-se lá em cima, na linha de alturas, no planalto do poder. A população em geral está cá em baixo, na planície. Onde sempre deve estar a arraia-miúda, pensam os de cima. Entre os dois grupos, os que mandam ou julgam mandar, lá em cima; os mandados, ou nem tanto, cá em baixo, o fosso é grande. Tão grande que raramente os de cima prestam atenção ao que se vai dizendo, por vezes até gritando, cá em baixo.
Muito provavelmente, pensarão os temporários ocupantes das cadeiras do poder, que oposicionistas e outros eleitores críticos são apenas os animais da velha e popular alegoria "Os cães ladram mas a caravana passa."
Pois se assim vêem as coisas, nada indicando que seja de outro modo, estão gravemente equivocados. E poderão vir a ter graves dissabores daí resultantes.
Os ditos fustigadores das deficientes (ou mesmo inexistentes) políticas locais, poderão de facto não passar de simples animais, ou até de meros ornamentos desta democracia que fingimos ter. O mais grave, todavia, é que a caravana também não passa. E não passa porque não anda. Há décadas que deixou de andar. Ficou atida às benesses do Estado. À vaca do orçamento da Nação. Agora, que os recursos disponíveis de Lisboa são quase nulos, com forte tendência para o encolhimento irreversível, ou a caravana nabantina recomeça a andar, que o mesmo é dizer a criar riqueza a bom ritmo, ou o melhor será ir procurando poiso mais acolhedor. Para todos. Incluindo os transitoriamente instalados no planalto do poder local. Com o incremento do governo electrónico, uma boa Loja do Cidadão é quanto basta aqui na zona, em termos administrativos. E lá se vão os 500 empregos autárquicos. Como já aconteceu com o quartel general, a banda de música, a fanfarra militar, a farmácia militar, o hospital militar, o tribunal militar, a estatística, a polícia judiciária, o CDOS...
Continuem à espera que a situação melhore, ou que apareça o nosso salvador numa manhã de nevoeiro, e depois queixem-se ! Tal como ocorre com algumas enfermidades mais graves, que se começarem a ser tratadas demasiado tarde são fatais, também a velha urbe gualdina está em risco de vida. Infelizmente !

A JANELA EXPLICADA AOS VINDOUROS - 3

Ontem mostrámos-lhe o cão e o gato, eventuais companheiros dos navegadores (ver " A janela explicada aos vindouros 2"). É agora a vez de lhe mostrar por que razão havia pelo menos um gato a bordo de cada caravela. Do lado oposto ao cão e ao gato, no ângulo superior esquerdo da janela, adossado ao pináculo, entre a corda e o feto, aí temos o nosso hóspede indesejado -um rato ! Meio dissimulado, como convém. Geralmente estes roedores entravam a bordo sem convite, usando as cordas de amarração como vias de acesso. Por isso estas cordas (a que os marinheiros chamam cabos) tinham uma série de bóias de cortiça assaz largas para impedir que os ratos as conseguissem ultrapassar. Mas mesmo assim... (Ver na mensagem anterior e na foto da janela, as ligação desta a cada um dos contrafortes (botaréus).
É claro que a esmagadora maioria dos visitantes ignora estes detalhes. Porque são minúsculos, mas também -e sobretudo- porque não há quem lhos mostre, numa evidente falta de respeito pelas obrigações do serviço público, e por todos os contribuintes, que depois ainda têm de desembolsar mais cinco euros por pessoa, para visitar aquilo que afinal é de todos. O costume -muito blábláblá, mas quanto a obras, está quieto ! Dá muito trabalho e o estado paga mal. Mas lixa-se que também é mal servido, pensarão muitos funcionários. O pior é que quem se lixa realmente são sempre os do costume... Há séculos que assim acontece.

As visitas guiadas fazem tanta falta, que até coisas à vista de todos escapam aos visitantes, naturalmente desorientados num para eles labirinto, que ignoram completamente. É o caso deste monstro, com guizos a encimar-lhe a cabeça, um focinho horrendo, olhos e dentes enormes, a vomitar agitação marítima. Exactamente ! Acertou ! O nosso conhecido Gigante Adamastor, terror dos nossos navegadores de antanho, do qual falam os Lusíadas. Não lhe parece ? Então tenha a bondade de ver a foto seguinte, que é a mesma, mas numa outra posição.


Repare na extraordinária beleza plástica (é uma opinião apenas) do duplo enrolar das vagas, que depois vêm morrer na praia, do lado direito. Este friso gigantesco, esculpido com uma extraordinária sensibilidade há cinco séculos, cercava originariamente toda a construção manuelina. Posteriormente foi muito mutilado sendo agora apenas visível nos botaréus da fachada poente e do lado esquerdo do portal sul, da Virgem (ou castilhiano, para usar o jargão pseudo-erudito de certa gente...). E quase ninguém dá por ele ! É pena, sobretudo para as crianças, que gostam tanto do Harry Potter, mas se calhar nem nunca ouviram falar do Adamastor. É por estas e por outras, que somos como somos e estamos como estamos. E com forte tendência para piorar. Haja saúde ! E pachorra, já agora...



terça-feira, 24 de Novembro de 2009

A JANELA EXPLICADA AOS VINDOUROS - 2

Numa de defesa do património, que pode estar em sério perigo, caso não impere o bom senso, escrevemos anteriormente sobre a ornamentação da Janela do Capítulo. Publicámos também uma fotografia, tirada na posição em que a maioria dos turistas a vê, que está longe de ser a mais favorável.
Desta vez, mostramos a ilustração mais frequente nos desdobráveis turísticos -a fotografia frontal- que tem dois grandes óbices: 1 - Não se indicando as dimensões reais, a janela parece bem mais pequena a quem nunca a viu directamente ou na TV; 2 - À falta de esclarecimentos adequados, muitos visitantes percorrem a parte exterior do convento e do castelo, naturalmente à procura da janela. Nada mais lógico, visto que as janelas dão sempre para o exterior. Só que neste caso...
Se, após a leitura da explicação do poste anterior, alguém ficou convencido de que agora já sabe tudo sobre a ornamentação da Janela do Capítulo -desengane-se ! Nunca se consegue saber tudo sobre um tema, seja ele qual for. O autor destas linhas, por exemplo, conhece e observa regularmente a principal atracção do Convento de Cristo há mais de 50 anos. Mesmo assim ainda descobre coisas novas de cada vez que a visita de forma mais detalhada. Quer um exemplo prático ?


Na realidade, a representação da água do mar, que referimos no escrito anterior, e que se vê por cima das salinas, forma afinal um rectângulo, cujos lados maiores são paralelos aos pináculos, passando o inferior por trás da parte superior do tronco suportado pelo vulto humano. Uma espécie de moldura líquida, a separar a ornamentação marítima da terrestre. Outro exemplo ?
Repare nesta fotografia do anglo superior direito da anterior. Concentre-se no espaço entre a base da esfera armilar e o espaço do pináculo entre a corda e o feto. Já viu ? Estão lá representados, em alto relevo, dois pequenos animais de companhia. Ainda tem dúvidas ?

Pois aqui os temos, todos catitas, apesar de festejarem 500 anos em 2010. A prova evidente e indesmentível de que afinal os líquenes e outros musgos não danificam, antes protegem o calcário contra as chuvas ácidas. Ambos de cabeça para baixo, temos à direita o gato Gualdim, com a cauda para a direita, e à esquerda o cão Nabão, com o rabo aparente entre as patas traseiras. Convivem sem problemas, dado que foram criados juntos e assim estão há centenas de anos. E esta hein ??!!, exclamaria o saudoso Fernando Pessa, do alto das suas oitenta e tantas primaveras. E agora, julga que já sabe finalmente tudo sobre a decoração da janela ? Pois nem pensar. Tenha santa paciência e aguarde o próximo texto, se fizer o favor de nos continuar a ler. Para tudo é preciso cada vez mais pachorra...


A JANELA EXPLICADA AOS VINDOUROS

Eis a Janela do Capítulo, tal como a vêem quase todos os visitantes da Casa da Ordem de Cristo. A partir de um pequeno terraço, que alguns julgarão ter sido feito exclusivamente para apreciar a fachada poente do coro manuelino. Na verdade, trata-se apenas da cobertura da escada de ligação entre o 1º piso do claustro de Santa Bárbara e o piso térreo do claustro de D. João III. Tudo isto começou a ser edificado 25 anos após a conclusão da Janela.
Olhando com mais atenção, apercebemo-nos de que os sinais do tempo, os líquenes, os musgos, a patine, as diversas tonalidades, lhe dão outro relevo, outras perspectivas, outra visão dos volumes que a constituem. Custa até imaginar o que virá a ser após uma eventual lavagem limpeza, que a deixaria toda com o mesma tonalidade monocromática, como já acontece na Torre de Belém e nos Jerónimos, alvo de desastradas operações de lavagem/limpeza, certamente muito lucrativas mas verdadeiros atentados à integridade dos monumentos que são património da humanidade.
Ao longo dos seus quase 5 séculos (completá-los-á o ano que vem) já sofreu vários atentados. Roubaram-lhe as duas imagens, que ignoramos a quem representariam, e até a entaiparam. Agora, porém, é muito mais grave. Se as nossas suspeitas são fundadas, pode bem estar em curso um processo bem intencionado, como todos, capaz no entanto de a vir a mutilar irremediavelmente. Estamos a falar da sua eventual lavagem/limpeza, que destapando os poros do calcário, até agora protegidos pelos tais musgos e/ou líquenes, a deixararia à mercê da infiltração de chuvas ácidas e consequente destruição lenta. Oxalá seja só uma suspeita nossa, sem qualquer fundamento. Oxalá !
Em todo o caso, como vale mais mais prevenir que remediar, faça o favor de imprimir a fotografia, depois de com dois cliques a ter ampliado, e segure-a ou ponha-a ao seu lado. Depois vá lendo o que seque e olhando para a fotografia, alternadamente. Assim poderá ficar em condições de descrever, de forma sumária, a janela aos seus amigos, aos seus filhos, ou aos seus netos. Enquanto os arautos do progresso ainda não lhe deitaram a mão. Depois poderá ser demasiado tarde, porque sem remédio.
Temos então, de cima para baixo, para a direita e para a esquerda, a cruz da Ordem de Cristo, logo abaixo o escudo nacional, de ambos os lados as salinas (os quadradinhos), com a água do mar que se vê muito bem no lado de cima, dois pináculos com alcachofras e fetos, um de cada lado, que servem de amarração para corais em forma de cinco invertido, aos quais estão ligados por correntes. Na parte superior de cada um dos ditos corais, a esfera armilar, emblema do rei D. Manuel, mestre da Ordem de Cristo antes de ter subido ao trono.
Logo abaixo do escudo nacional, dois corais ampliados, em forma de âncora. De ambos os lados mais fetos, pedaços de cortiça e cabos de amarração com grandes bóias de cortiça, que amarram a janela aos contrafortes da fachada, chamados botaréus.
Mais abaixo, do lado de fora dos pináculos em forma de plantas exóticas, dois troncos de coral. O da direita está amarrado com uma corrente, o da esquerda com uma guizeira. São os baldaquinos de duas imagens que entretanto desapareceram. Ignora-se quem ou o que representavam. Ainda nos pináculos, na direcção dos vazios onde estiveram as ditas imagens, um nó gigante da cada lado e logo abaixo alcachofras. Segue-se o motivo que fecha toda a estrutura ornamental. Uma árvore com as raízes à vista, suportada por uma figura humana, da qual se vê a cabeça e os braços. De ambos os lados, uma corda monumental, a ligar a parte inferior aos botaréus, tal como já descrito mais acima.
Assim é a obra-prima do manuelino, a Janela da Sala do Capítulo do Convento de Cristo de Tomar. O resto são opiniões. Perfeitamente legítimas, mas com as quais se poderá concordar ou não.
Continuaremos na mensagem seguinte. Mais logo, para evitar indigestões de manuelino, que é uma arte bastante complexa. Como os portugueses afinal...

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

MAIS OBRAS NO CONVENTO, TODAVIA...

Conforme escrevemos anteriormente, há neste momento quatro obras diferentes em curso no Convento de Cristo. Bom sinal. Significa que afinal sempre há verbas quando é preciso. E que em Lisboa se preocupam com a conservação da Casa da Ordem. Antes assim !

Neste caso, preparam-se para operar alguns melhoramentos nos antigos Paços do Infante D. Henrique, depois Paços de D. Manuel, de D. João III e de Dª Catarina. Finalmente designados por Convento Velho e abandonados à sua sorte. Na ausência de informação escrita no local, o que contraria as instruções usuais da União Europeia, Tomar a dianteira indagou, mas pouco conseguiu apurar. Trata-se ao que nos foi dito, de fazer uma passagem para visitantes com dificuldades de locomoção, entre o antigo hospital militar e o claustro da lavagem. Dadas as características da zona, não estamos a ver o que dali poderá saír. Aguardemos pois.


Sendo certo que um dos grandes problemas actuais para quem visita o Convento é aquela ridícula entrada improvisada, sobretudo quando se é obeso, se usam canadianas, ou se anda em cadeira de rodas, há outro e de igual importância. Falamos da falta que fazem as visitas guiadas para todos os visitantes, salvo quando pretendessem andar sozinhos.
Como habitualmente, os responsáveis pelo monumento vão alegar que não têm guias oficiais no quadro de pessoal, que o sindicato dos guias não permite que pessoal não sindicalizado guie visitas (o que é redondamente falso), e que todo o percurso está devidamente explicado em vários painéis descritivos colocados nos locais mais adequados.
Que tais indicações existem, não temos quaisquer dúvidas. A fotografia acima documenta um deles -o da Janela do Capítulo. Que sirvam realmente para alguma coisa, temos as maiores reservas. Na nossa pobre opinião, o autor ou autores de tais textos nunca devem ter estudado pragmática línguística, nem noções de comunicação, nem tipos ou níveis de língua. Se estudaram já se esqueceram. Ou então agiram deliberadamente em conformidade com aquela norma universitária portuguesa, que embora nã escrita muita gente segue -o importante é dizer coisas simples com uma linguagem rebuscada, de forma a alardear erudição. Quanto menos os destinatários das mensagens perceberem, melhor !
Temos assim uma série de textos curtos, numa linguagem que valha-nos Nossa Senhora da Agrela, que não há santa como ela ! Os visitantes que deles precisariam para perceberem o que vêem, não os entendem de todo. Os raros outros que os entendem, esses não precisam de os ler, pois já perceberam o que viram.
Estamos portanto perante mais um caso em que o comum dos mortais será levado a murmurar de si para si -"está muito bem escrito mas não percebi patavina !" E você, com toda a franqueza, que ninguém mais o ouve -Percebe o texto ? Então aqui vai outra proposta para o mesmo local, que nos parece mais de acordo com a generalidade dos visitantes: "A janela do capítulo é a obra prima de Diogo de Arruda e do manuelino, um estilo unicamente português. Foi feita entre 1510 e 1513. A sua ornamentação é composta de elementos naturalistas ligados à epopeia dos descobrimentos. Vêem-se igualmente, em cima, a cruz da Ordem de Cristo, o escudo nacional e as esferas armilares, emblemas do rei D. Manuel.
Na parte de baixo está um marinheiro com uma árvore às costas.
Os contrafortes dos dois lados da fachada, chamados botaréus, representam em parte troncos de árvores. Até vemos as raízes. O da direita está amarrado com um cinto, que é o símbolo da Ordem da Jarreteira. No da esquerda vê-se a cadeia da Ordem do Velo de Ouro."
Que lhe parece a si, que habitualmente lê este blogue ? A sua opinião é importante para nos ajudar a aferir critérios de compreensão do português, como meio de comunicação eficaz entre os portugueses e outros lusófonos.



OLÁ JORGE !


Repara que, por respeito, uso o mesmo estilo da tua última resposta para este modesto blogue, no passado domingo, dia 15. Uma semana antes de nos deixares para sempre neste pântano tomarense, simultaneamente tão acolhedor e tão repelente, que nunca mais será exactamente o mesmo na tua ausência involuntária. Só quando soube da tua última viagem consegui perceber cabalmente a tua derradeira mensagem no Nabantia, horas antes do teu apagamento final. Outro tanto aconteceu com o teu bem humorado texto "Olá Odete!", onde a dada altura dizias que "Já uma vez o Nabantia teve de esclarecer quem NÃO era, até para evitar aborrecimentos injustificados a terceiros." Como eu te entendo agora !
Afinal o Nabantia sempre eras tu e o teu estilo inconfundível, mas não podias admiti-lo, pois a casa onde ganhavas o teu pão não parece apreciar mesmo nada a transparência nem a frontalidade, exactamente as tuas grandes qualidades de homem da direita civilizada.
Entalado entre os teus desejos e as vontades dos outros, a vida terá sido bem dura e demasiado injusta para ti, mas podes agora estar descansado por essas bandas, pois cumpriste plenamente a tua parte e viveste intensamente as tuas quarenta e oito primaveras.

Um grande abraço de muita saudade e até ao nosso reencontro,


Sebastião Barros, Odete das Farturas, António Rebelo

INSÓLITOS TOMARENSES - 11

Tanta tralha para tão pouco coisa. Uma simples grade metálica a vedar a rua, com um só sinal de sentido proibido, não seria mais simples e mais eficaz ? Muito gostam os tomarenses do estilo manuelino ! Quanto mais ornamentação, melhor fica !